O Exército brancaleone de Lula … Que insiste em acabar com o PT

Para salvar a própria pele, o ex-presidente escala um seleto grupo de amigos implicados na Justiça e se mantém no poder no PT.  Mas isso impede qualquer tentativa de reconstruir o partido que ele mesmo criou há 37 anos. Publicado na Isto É, assinado pelo jornalista Ary Filgueira.

Lançado pelo cinema italiano nos anos 60, “O Incrível Exército de Brancaleone” é uma paródia bem humorada do clássico da literatura Dom Quixote de Cervantes. Na sátira, um cavaleiro atrapalhado reúne um pequeno e esfarrapado exército e tenta construir um feudo em meio a outras potências já consolidadas na Europa. Obviamente não deu certo. Assim como na ficção, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também tem agrupado um verdadeiro pelotão de feridos para levar ao sacrifício, quase todos eles alvejados por denúncias de corrupção na Lava Jato, e com eles retomar o poder no PT. Lula quer ser o presidente da sigla e criar outros postos de comando regionais: fórmula básica de distribuição de cargos para calar a boca de críticos e insatisfeitos, mesmo que sejam combatentes mutilados por suspeitas e condenações. Entre os chamados vice-presidentes regionais, Lula pretende escalar o ex-ministro Jaques Wagner, o senador Lindbergh Farias, o ex-prefeito Luiz Marinho, e o amigo pessoal Paulo Okamoto. Mas essa estratégia de comandar o partido mostra que ele se tornou surdo ao apelo popular e até de setores da legenda que clamam por uma refundação completa do PT, com renovação total de sua diretoria, transformação do modo de fazer política e reconexão com antigas bandeiras, que foram pisoteadas pelos anos no poder.

Trata-se de uma surdez conveniente. Por trás dela há um objetivo pessoal mais importante para ele do que o futuro da agremiação: salvar sua própria pele, que está ameaçada por eventual condenação, a qualquer momento, no âmbito de uma das cinco ações na justiça em que é réu. A estratégia é presidir o partido, moldá-lo novamente com seus preferidos, reunir todo apoio em torno de seu nome para lançar-se à Presidência da República para a disputa em 2018. Enquanto estiver na condição de pré-candidato, ele mantém a narrativa de que qualquer acusação tenha cunho de perseguição eleitoral.

O problema é que para manter em pé essa narrativa, o ex-presidente se mostra um oportunista de carteirinha, pois põe em risco a sobrevivência do partido. Ao contrário do que apregoam os coroados petistas implicados na Lava Jato e em outras falcatruas, há na legenda aqueles que ainda vislumbram a reconstrução do partido, capaz de empunhar a bandeira da ética sem se envergonhar. Nos últimos meses do ano passado, um movimento nessa direção foi desencadeado por lideranças como Olívio Dutra, Tarso Genro, Paulo Paim, Renato Simões, entre outros. A premissa deles era que seria impossível recuperar a estrela vermelha caso não fosse feita uma reforma profunda no partido. E isso deveria incluir Lula.

CÚPULA PETISTA DIZIMADA

Mas a movimentação de Lula pode inviabilizar qualquer movimento de recuperação da legenda e levar o PT ao raquitismo. Os petistas parecem não ter entendido o recado das ruas e das urnas, quando foram massacrados. Primeiro, pelo coro de movimentos contra a corrupção em meio ao processo de impeachment de Dilma Rousseff. Depois, a sigla acabou dizimada em boa parte das prefeituras nas últimas eleições municipais, perdeu nas capitais federais e até no ABC paulista, histórico reduto. Passou de terceiro para décimo lugar no número de prefeituras no País.

Entre as principais causas da ruína está o envolvimento da cúpula petista com escândalos de corrupção, como o Mensalão e o Petrolão. As duas operações levaram à prisão quadros representativos, a exemplo dos ex-ministros José Dirceu e Antônio Palocci, dos ex-deputados federais André Vargas e José Genoino, além dos tesoureiros Delúbio Soares, João Vaccari Neto, Paulo Ferreira e do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha.

O empenho de Lula dentro do partido tem relação com as ações que responde no âmbito das operações Lava Jato e Zelotes. O ex-presidente é réu por ser apontado como partícipe de crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, tráfico de influência, organização criminosa. Não há outra saída a não ser essa é o que avaliam as principais mentes petistas. A estratégia é registrar a candidatura do ex-presidente já no próximo mês para evitar que uma possível condenação na justiça possa barrar a inscrição do nome dele no pleito.

A VOLTA DE LULA IMPEDE RENOVAÇÃO

A tática de guerrilha pretende blindar o nome do ex-presidente do intrépido juiz federal Sérgio Moro. O magistrado do Paraná já demonstrou que não vai passar a mão na cabeça de nenhum envolvido no esquema de corrupção montado na Petrobras. O contra-ataque petista prevê o resultado de que a pré-candidatura possa corroborar com a tese de que há uma conspiração em curso para evitar que o ex-sindicalista chegue novamente ao Palácio do Planalto.

Mas a estratégia de lançar Lula à candidato à Presidência, não é consenso dentro da legenda. Uma corrente defende que a candidatura de Lula seja lançada durante o 6º Congresso Nacional do PT, marcado para ocorrem em abril ou até mesmo em maio. Um dos defensores dessa tese é o ex-ministro da Comunicação Social de Dilma Rousseff e atual prefeito de Araraquara (SP), Edinho Silva. “Acho que está cedo para definir a tática eleitoral. Tem de abrir esse debate. Nesse momento penso que ainda não dá para dizer que temos um nome”, disse.

Mas outras correntes não querem essa definição agora. O individualismo de Lula contrasta com a prioridade do partido, que neste momento é a renovação para tentar sobreviver até as próximas eleições. Isso é o que defende o senador Paulo Paim (RS). Ele disse que a prioridade é a reconstrução. Para ele, o PT vive tempos conturbados e de extrema bagunça. É preciso arrumar a casa. A população, segundo analisa, tem de sentir essa reconstrução. E deu a receita: “Defendo as causas que dão resultados no campo social, como saúde, educação, direitos dos trabalhadores. Não nomes. A gente está sempre endeusando nomes. Olhar para o horizonte, pensando no coletivo e não de forma individual, nesse ou naquele sujeito, como se fosse o salvador da pátria”.
Mudanças que outras lideranças importantes do partido defendem. Como é o caso do próprio Edinho. Menos comedido que Paim, ele faz a ressalva de que o PT precisa reconhecer seus erros para tentar sobreviver no cenário político. Para ele, o principal erro defeito da conduta do país pelo partido foi o modelo político de financiamento. “Para mim foi o maior erro”, reconhece.

“A esquerda deveria apoiar Temer”
O ex-deputado Cândido Vaccarezza, que foi líder dos governos Lula e Dilma e que durante 30 anos foi filiado ao PT, está agora militando no PTdoB, com o objetivo de atrair petistas descontentes. Ele acha que a esquerda deveria apoiar o governo de Michel Temer.