Venezuela no hay comida

Nicolas Maduro agoniza: Venezuela pede socorro!

A agonia do chavismo. O referendo era um dos últimos se não o último caminho pacífico e legal que restava para a mudança de que o país precisa. Editorial do Estadão de 26 de outubro. Imperdível para saber o que acontece na vizinha Venezuela.


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A suspensão pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), controlado pelo governo, do referendo por meio do qual a população poderia revogar o mandato do presidente Nicolás Maduro; a resposta da Assembleia Nacional, que considerou essa decisão um golpe de Estado; e a probabilidade de o Mercosul – a julgar pela firme posição adotada pelos presidentes da Argentina, Mauricio Macri, e do Uruguai, Tabaré Vásquez, que certamente contará com o apoio do Brasil e do Paraguai – de suspender a Venezuela indicam que os acontecimentos nesse país estão se precipitando e o regime chavista caminha para seu fim.

A decisão do CNE já era esperada, porque a realização da consulta popular antes de 10 de janeiro – como queria a oposição, que para isso tinha condições de cumprir as exigências legais – resultaria no fim do mandato de Maduro, como indicam todas as pesquisas de opinião, e na realização de nova eleição. Se o referendo ainda ocorrer depois dessa data e o presidente perder, será substituído pelo vice – o atual, Aristóbulo Istúriz, ou outro que Maduro indicar – e nada mudará. E o CNE pode também manobrar para que o referendo seja simplesmente anulado.

A atitude adotada pela Assembleia expressa com exatidão, portanto, o que aconteceu. A oposição já deu os primeiros passos para abrir o processo de impeachment de Maduro. Mas isso não será fácil, porque tudo indica que o presidente, na ânsia de sobreviver a qualquer custo, lançará mão dos recursos de que ainda dispõe, no jogo de cartas marcadas que é o chavismo, como é o caso do controle que exerce sobre o Tribunal Supremo de Justiça. Se tudo falhar, poderá apelar para sua bem treinada militância, que já deu muitas mostras do que é capaz, sendo a última delas a invasão da sede da Assembleia, quando ela denunciou o golpe de Estado.

O referendo era um dos últimos se não o último caminho pacífico e legal que restava para a mudança de que o país precisa, tanto para não cair de vez na ditadura pura e simples como para superar a profunda crise econômica e social em que o chavismo o mergulhou. Daqui para a frente, como só restou à oposição o apelo às manifestações populares, das quais já deixou claro que não abre mão, o risco de conflitos só tende a crescer.

Não surpreende, pois, que o Mercosul finalmente tenha decidido endurecer o jogo com a Venezuela. Depois de um encontro em Buenos Aires com seu colega uruguaio Tabaré Vásquez, o presidente Mauricio Macri foi incisivo: “Do jeito que está, a Venezuela não pode fazer parte do Mercosul e tem de ser condenada por todos os países do continente e do mundo”. E anunciou que o Mercosul se reunirá nos próximos dias para discutir a aplicação da chamada Cláusula Democrática àquele país, por violar os princípios da organização, o que significará a suspensão de todos os benefícios de que goza, como a livre circulação de pessoas e a união alfandegária.

A adesão do presidente uruguaio foi decisiva, porque ele era o único que ainda resistia, por razões de política interna, a enquadrar a Venezuela, depois que Macri mudou a política da ex-presidente Cristina Kirchner. Foram o Brasil, já sob o governo Temer, e o Paraguai que lideraram a bem-sucedida resistência às pretensões de Maduro de assumir a presidência rotativa do Mercosul. Por isso, ambos apoiarão com certeza a posição de seus colegas argentino e uruguaio.

Ao lado do desastre chavista ficam apenas os seus poucos e renitentes aliados bolivarianos, como Bolívia e Equador, além do arqueológico comunismo cubano.

A tentativa do papa Francisco de promover um diálogo entre Maduro e a oposição, com a mediação do núncio apostólico na Argentina, monsenhor Emil Paul Tscherrig – as negociações devem começar dia 30 –, pode ser a última possibilidade de saída pacífica para a crise que semeou a miséria e o ódio, em larga escala, na Venezuela. Mas o histórico de Maduro – do qual o golpe de Estado do referendo é o episódio mais recente – não permite alimentar esperança.