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Fusão do PMDB e PSDB – Um núcleo de centro

Reforçadas pela visita do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao presidente Michel Temer, e pelo apoio daquele à emenda constitucional que cria um teto de gastos para o setor público, as conversações entre PMDB e PSDB podem consolidar no País uma forte tendência política de centro, em que costuma votar a maioria dos eleitores.


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Por enquanto, os primeiros movimentos feitos por articuladores dos dois lados tendem a criar, entre eles, um compromisso de luta pelo sucesso das iniciativas do governo de Temer. Em seguida, passa-se a pensar para além de 2018, com vistas à sucessão presidencial.

Duas possibilidades futuras na mexida das peças do xadrez político começam a ser estudadas. Numa primeira, PMDB e PSDB chamariam para participar do bloco partidos que hoje fazem parte da base de apoio de Temer no Congresso, como DEM e PPS, além dos que formam o chamado Centrão, conjunto de 13 legendas que tem sido bastante fiel às orientações do Palácio do Planalto. Eles negociariam entre si nomes dos candidatos a presidente e a vice-presidente da República da chapa à sucessão de Temer a ser lançada daqui a dois anos.

A outra possibilidade, esta por enquanto mais remota, prepararia PMDB e PSDB para um processo de fusão. A depender da reforma política que vier a ser feita pelo Congresso, que poderia levar à redução do número de partidos, os dois se tornariam um só, a partir de negociações em torno de um novo estatuto partidário.

Peemedebistas lembram que quase todo o núcleo político central que formou o PSDB no fim dos anos 1980 saiu do PMDB. Entre eles, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin. O ex-deputado Ulysses Guimarães, talvez o maior nome da memória do PMDB, começara a negociar a entrada no PSDB dias antes de morrer num acidente de helicóptero, em 12 de outubro de 1992.

De lá para cá, o PSDB manteve-se como um partido orgânico, de orientação social-democrata, como o PT, mas de tendência privatizante e não estatizante. Chegou à Presidência da República por duas vezes, em ambas elegendo Fernando Henrique.

Com votação pequena nas eleições presidenciais de 1989 e 1994, o PMDB abdicou da luta pelo poder central, reforçou-se nos municípios, o que o manteve grande. Em consequência, o partido sempre elegeu bancadas fortes na Câmara e no Senado, o que lhe garantiu pelo menos uma das presidências das duas Casas do Legislativo, quando não as duas, simultaneamente. Do governo de Itamar Franco para cá, o PMDB tornou-se linha auxiliar de todos os presidentes. Acabou por ser carimbado com a marca do fisiologismo.

Em novembro, os peemedebistas lançaram um programa de governo para 2018, chamado de “Uma ponte para o futuro”. Nele, defendem um Estado ultraliberal, baseado na economia de mercado, nas privatizações, na redução do tamanho da máquina pública, nas reformas, como a da Previdência e trabalhista, e no equilíbrio das contas públicas. Com o impeachment, Temer adotou o programa. A elaboração dele teve a ajuda de alguns tucanos.

Como a política não é uma ciência exata, inúmeros fatores podem interferir nas negociações que estão se iniciando entre PMDB e PSDB. Por exemplo: se até fevereiro o governo de Michel Temer não conseguir que a economia dê sinais claros de que vai melhorar, é bem possível que surja entre os deputados tucanos uma forte pressão pelo lançamento de um candidato à presidência da Câmara. Esse movimento poderia atrapalhar os planos de Temer de assegurar para o Centrão o comando da Casa.

O PSDB sabe que seu futuro depende do sucesso do governo de Temer. Se tudo começar a dar errado, não há por que ficar e se contaminar.   Assim é a política. Ela não conhece a gratidão nem companheirismo. Também não costuma preservar amizades.

Conteúdo Estadão, assinado pelo jornalista João Domingos