Dirceu aquece marmita com um “rabo quente”

Cabelos grisalhos penteados para trás, calça esportiva e camiseta, o detento aquece a marmita do almoço com o rabo quente, um dispositivo elétrico feito para ferver água. Pelo guichê no alto da porta de ferro maciço é possível observar esse momento prosaico da rotina de José Dirceu de Oliveira e Silva, ex-ministro da Casa Civil, ex-controlador da máquina do PT, ex-“guerreiro do povo brasileiro” e mensaleiro na galeria 6 do Complexo Médico Penal, em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba.


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Ao final de uma manhã de novembro, Dirceu esboçou um sorriso quando notou a passagem de autoridades de um mutirão do Tribunal de Justiça do Paraná pelo corredor. A temperatura estava em torno dos 20 graus, um clima ameno para o normalmente frio Complexo Médico Penal, que aliviava a umidade habitual.

Desde agosto de 2015, Dirceu vive sua terceira temporada na cadeia – antes, foi preso político, na década de 1960, e preso por corrupção devido ao mensalão, entre 2013 e 2014. Condenado desta vez a 23 anos pelo desvio de cerca de R$ 15 milhões em contratos da Petrobras, em tese ele só poderá sair em setembro de 2019, quando terá direito ao regime semiaberto. Enquanto isso, Dirceu trabalha como distribuidor de livros e organizador do acervo da biblioteca do presídio. O cargo não existia, foi criado a pedido dele – os vícios do poder político não se vão facilmente, como se vê. Ao exercer a função ele tem, como prevê a lei, direito a um dia de remissão de pena para cada três trabalhados. Sairá da prisão um pouco mais cedo. Aos 70 anos, Dirceu espera; sabe que tempo bom é aquele que passou.

Zé Dirceu divide a cela 602 com um ex-aliado do PT, o ex-deputado Luiz Argôlo. Com um short de microfibra da Nike, uma camiseta de algodão azul e barbeado, Argôlo exibia o rosto de “bebê Johnson”, como chamava seu amigo doleiro Alberto Youssef. Tinha a mesma aparência dos tempos de deputado do baixo clero, em que se deslocava num helicóptero bancado por Youssef. Condenado a quase 12 anos por ter recebido mais de R$ 1 milhão desviados da Petrobras, Argôlo poderá ir para o regime semiaberto se pagar uma multa de R$ 1,5 milhão. Ali ao lado, com o rosto colado ao guichê da cela 601 para ver o movimento, um detento observa ansiosamente os passos de quem passa. Barba feita, cabelos partidos ao meio, mas abatido e magro, o ex-senador Gim Argello, do PTB do Distrito Federal, segura uma caneca verde com água da torneira.
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http://epoca.globo.com/politica/noticia/2017/01/vida-dos-presos-da-lava-jato.html